Crónicas

Paco, o meu primeiro cão.


Tive o meu primeiro cão aos 27 anos. Veio anexado ao meu marido mas rapidamente se anexou a mim.
Sempre quis ter um cão. Lembro-me de o pedir ao Pai Natal e mais tarde diretamente aos meus pais, mas nem o Pai Natal nem os meus pais meus pais acharam que fosse boa ideia. Sempre fizemos muitas viagens e o meu pai achava que um cão nos iria tirar a liberdade.
Muitos anos mais tarde conheci o Pedro e com ele o Paco. Não foi amor à primeira vista, com o Paco, claro.Rosnou-me muito assim que me conheceu e lembro-me de ficar meio assustada com aquele cão de palmo e meio mas com espírito de Grand Danois.
Não demorou muito até que me apaixonasse pelo Paco também e passou a ser um grande companheiro. Adormecia a ouvir-me tocar e ía comigo para todo o lado. Chegou até a fazer parte da capa e videoclipe de um dos meus discos.
Sempre levámos o Paco para onde quer que fossemos e a verdade é que apesar de entender o receio do meu pai quando eu era pequena, nunca senti que tivéssemos perdido a liberdade por causa dele.
Quando o meu primeiro filho nasceu tentámos preparar o Paco para a sua chegada mas quando ele conheceu o Zé não lhe ligou nenhuma. Já tinha ouvido várias histórias de cães que não saem de perto do berço, outros que dormem à porta do quarto do bebé, outros até que sofrem quando o bebé chora. O Paco não quis saber, aliás, até deixou de dormir no nosso quarto por sua livre e espontânea vontade, o que talvez se possa traduzir por algum ciúme.
Quando o Zé começou a deixar cair comida da cadeira das refeições, ou a dar-lhe bolachas de arroz, tornaram-se finalmente amigos.
Um anos depois do nascimento do meu filho fiquei novamente grávida e o Paco ficou doente. Lembro-me de estar em Espanha e o meu marido me ligar a dizer que o tinha levado ao veterinário e que ele teria de ser operado de urgência. Ninguém nos podia garantir que ele iria sobreviver à operação, ou que iria sobreviver ao período de recuperação, mas nenhum de nós hesitou e o Paco foi operado.
A recuperação foi muito rápida e passado pouco tempo já corria loucamente como antes.
Nasceu a Rosa e passámos a ser uma família de 7. Sim porque ao longo dos anos juntámos mais dois cães ao nosso gangue, a Quinoa e a Mucca.
De casa e coração cheios vivemos um ano os 7, cada um com a sua personalidade, cada um com o seu tamanho.
No final desse ano começámos a ver que o Paco já não estava bem outra vez e desta vez decidimos não o fazer passar pelo mesmo sofrimento. Decidimos que ele iria quando fosse a sua hora de ir. E essa hora chegou mais cedo do que esperávamos.
Para o Zé o Paco é uma estrela. Disse-lhe que no fim da vida todos ganhamos asas e voamos para lá das nuvens . Ainda hoje ele continua a dizer que tem 3 cães , “só que o Paco vive no céu”.
Já eu , sinto que esperei 27 anos para ter o meu primeiro cão porque tinha de ter o mais incrível de todos.

LUÍSA SOBRAL
Cantora e compositora

Datas de digressão: 25 de outubro, Benavente; 20 de novembro, Bragança; 7 de dezembro, Lourinhã; * mais informação em www.luisasobral.com