Crónicas

A metamorfose


Na contagem decrescente para botar o primeiro filho no mundo, vou dizendo adeus a uma versão de mim. Vou ter saudades, mas estou curiosa para me conhecer daqui a uns meses.

É como se estivesse no corredor da morte, mas em bom”, foi o que me saiu quando alguém há pouco tempo me perguntou como estava a ser o último trimestre desta minha primeira gravidez. Claro que não posso assegurar que morrer seja péssimo nem que ter filhos seja ótimo, porque nunca passei por nenhuma dessas experiências, mas calculo que tenham em comum a perspetiva de que, a breve trecho, iremos despedirmo-nos de nós próprios.
No caso da maternidade, há vida depois dessa despedida, é uma espécie de metamorfose. Imagino que a minha voz interior nunca mais soe da mesma forma, quanto mais não seja porque ficará abafada pelo guincho exigente do meu filho. É por isso que, docemente conformada, me vou despedindo dos meus monólogos neuróticos e preparando para deixar de correr atrás do meu próprio rabo individualista.
Podem dizer que estou a ser dramática – ou pragmática, consoante a experiência de cada um ou da forma como, em retrospetiva, a interpretam. Alguns pais mais rodados registam só a felicidade do milagre da vida; outros, o inferno da privação de sono. Nenhuma destas fações se mostra arrependida (mesmo que esteja, imagino), mas o que interessa é que ambas concordam que nada será como dantes. Nunca ninguém disse: “Ser mãe/pai é difícil, mas também não é isso tudo que andam para aí a dizer. Embora almoçar?”. Portanto, parem de doutrinar e deixem-me despedir de mim mesma tal como me conheci até hoje.
Tenho lido várias opiniões de especialistas que dizem que um dos maiores erros dos futuros pais é acharem que vão dar perfeitamente conta do recado. “Perfeitamente”, como se um recém-nascido fosse só mais uma variante a ter em conta na gestão do dia a dia. Que até vão conseguir trabalhar “nos intervalos” ou acabar de ver uma série ou voltar logo ao ginásio. E, sim, a vidas das influencers nas redes sociais diz-me que tudo isso é (ou pelo menos parece) possível — mas desconfio que não seja “perfeitamente” possível. Aliás, há várias razões para eu não ser influencer e uma delas é o meu pessimismo. A constante antecipação do caos não é inspiradora nem sexy. Paradoxalmente, é o que me tem proporcionado grandes alegrias na vida e um enorme sentimento de gratidão: é mais certo que corra tudo mal, por isso tudo o que correr bem é bónus.
Por outro lado, isto de gerar vida é uma coisa muito maior do que eu. Sinto que devo ter alguma humildade em vez de andar a engendrar estratégias para me proteger da tempestade de amor e fezes — metafóricas e literais — que se avizinha. Imagino que, com o tempo surjam subterfúgios que me permitam manter a minha sanidade e individualidade mas, por enquanto, prefiro visualizar-me a ser resignadamente passada a ferro por um rolo compressor de ansiedade, cansaço e frustração.
Este miúdo vai sair de mim e, tal como o bicharoco que saiu de dentro do John Hurt no Alien, vai dar-me cabo da vida. Só que eu, ao contrário do John Hurt, vou estar viva e até desconfio que vou gostar.

 

Ana Markl
Instagram: @ana_markl
Animadora de rádio, jornalista, guionista e autora de “O Grande Compêndio de Audiogésicos da Doutora Ana Correia”