Crónicas

PUZZLE


No pódio do meu pensamento de criança, depois de Dezembro e de Fevereiro era o mês de Junho que arrecadava a medalha de prata. Não só porque adorava celebrar o Dia Mundial da Criança como também era o mês que já trazia uma brisa a cheirar a férias. Agora, gosto de Junho pelas mesmas razões, mas também porque foi o mês em que nasceu a minha filha, Maria Francisca.

Não me vou alongar muito até porque quando falamos dos filhos sentimos tantas e tantas coisas que não cabem nestes 3000 caracteres. Provavelmente, nem num livro. E, algumas, só cabem ou queremos que só vivam no nosso coração e por isso nunca vão saber ganhar forma e passar de lá para cá. Para palavras escritas e frases. Mas, cabe aqui dizer-te que contigo sinto-me uma peça de um puzzle. Como aqueles puzzles para bebés de, somente, duas peças. Testa com testa ou a minha bochecha direita com a tua esquerda são as primeiras partes que se unem. Depois, quando adormeces na minha cama, procuras onde o teu braço vai encaixar no meu corpo e onde o teu pé vai pousar. Tiras, pões. Tiras, pões. Quando isto acontece eu toco o amor.
Cabe também aqui que não esquecerei a noite em que me disseste “Amo-te” tu que mal sabes ainda juntar palavras. Cabe aqui a noite em que baixinho sussurraste o mesmo ao teu irmão: “José, amo-te”. Ele mal queria acreditar e repetia também feliz: “Também te amo, Maria Francisca”. E depois beijaste-o muito. Com a mesma intensidade e carinho com que o beijas quando ele sai do carro primeiro do que tu para ir para a escola. Cabe aqui que escolheste abraço como uma das tuas primeiras palavras. Talvez porque era Natal e porque viste muitos. E tudo isto, estas paisagens tão perfeitas como o pôr do sol, aconteceram durante períodos de férias.
É nas férias que ocorrem sempre momentos inesquecí-veis entre pais e filhos e as próximas estão quase a chegar. Claro que haverá birras e cansaço mas existirá tempo. E o tempo ajuda a construir castelos de amor. Nas férias há tempo para brincar, para perguntar, para res-ponder, para fazer piscinas na areia da praia, para nadar, para mergulhar nas ondas e nos afetos, para ensinar que os recifes de coral são vida e têm vida, para comer gelados de muitos sabores, para apanhar flores, para sentir o vento, para dormir mais tarde e até tarde e para desejar que o tempo fique em suspenso.
E, tão forte como um beijo, são duas mãos que se dão. Apetecia-me andar todos os dias de mão dada contigo. Não podemos. Mas, nas férias, podemos mais.
A mão da mãe estará sempre aqui para agarrar a tua. Com a mesma força com que tu me puxas para ti. Sim, porque tu que adoras fazer puzzles sabes que as peças têm de ficar bem encaixadas.
Os entendidos dizem que a força é uma grandeza que tem a capacidade de vencer a inércia de um corpo modificando a velocidade (na direção ou magnitude).
Viva o verão, viva à força das crianças.

 

Maria Inês Almeida
Escritora