Crónicas

A Quarentena


Estamos em plena quarentena, sem saber por quanto tempo. A incerteza é grande. E para quem está em confinamento com os filhos os desafios são redobrados. Há que respirar fundo e ter esperança: Vamos ficar todos bem!A quarentena é necessária. Quase todos nos prontificámos a acatá-la e temo-nos mantido em casa. Mas mais do que necessária, a quarentena acaba por ser um privilégio. Se pensarmos que há tanta gente que tem de trabalhar, para que tenhamos acesso aos bens e serviços básicos do dia a dia e, sobretudo, para que os hospitais deem resposta ao crescente número de doentes.
Ainda assim, é duro pensar que estamos em casa fechados, por tempo indeterminado e em clima de grande ansiedade. Mais ainda quando se está completamente só, como é o caso de tanta gente. Ou quando a família é grande demais para uma casa tão pequena, sem espaço exterior e com crianças pequenas.
É difícil explicar aos pequenos que não podem sair, nem ir à escola e que o espaço confinado do pequeno apartamento é tudo a que terão acesso durante os próximos (longos) dias. Para os pais é muito desafiante entreter a prole, o dia todo, sem enlouquecer. E para os pequenos é desafiante não se pegarem e não destruírem a casa toda durante as brincadeiras.
Isto tudo, mais a necessidade de manter as rotinas e as tarefas escolares, para não perder o fio à meada e minimizar o inevitável atraso. Demasiados desafios num tempo já de si turbulento e em que a incerteza nos atordoa.
Não faltam sugestões na net de atividades para fazer com os miúdos, não faltam dicas de como manter a rotina, não faltam receitas para cozinhar com e para os mais novos, nem fichas de exercícios para fazer a pedido dos professores. Mas ainda assim, como é que se organiza o quotidiano, como é que se cumpre com todas as tarefas domésticas e como é que se entretém as crianças, quando nós próprios temos de trabalhar a partir de casa e andamos tão stressados com tudo isto?
É que se a quarentena acaba por ser um privilégio, a sua romantização não faz qualquer sentido. E chega a ser ridículo pensar na lista de coisas que a maioria das pessoas conjeturou fazer durante estas semanas de clausura, para quem tem filhos e continuar a trabalhar.
Arrumar a casa, é impossível. Manter o caos minimamente organizado já é uma grande vitória, ao final do dia. Ver filmes e séries, só quando as crianças vão dormir, mas já estamos tão KO que passado cinco minutos roncamos no sofá. Ligar aos amigos e pôr a conversa em dia em videochamadas coletivas, seria uma óptima ideia se não fossemos interrompidos a cada trinta segundos. E fazer aquelas receitas elaboradas, é totalmente inviável para quem está mais que farto de lavar loiça e cozinhar para muitos.
O grande objetivo é manter a sanidade. Não apenas por causa do ambiente apocalíptico em que vivemos, mas também porque estar confinado, acumulando filhos e trabalho, é um desafio hercúleo para o qual não estamos preparados, até porque nunca nos tinha sequer passado pela cabeça estar nesta situação. Respirar fundo, aceitar a nossa humana insuficiência e os pequenos fracassos logísticos é a melhor estratégia. Porque mesmo sendo duro, um dia (se correr bem) ainda nos vamos rir muito de tudo isto.

CAPICUA
Rapper